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Filhos
- Reflexo dos Pais
Por Viviane Scarpelo
O
desejo de muitos pais referente a seus filhos, é quase sempre
o mesmo. Crianças bem educadas, que sejam tranqüilas,
colaboradoras, que conheçam e pratiquem virtudes, que
preencham os requisitos de bom aluno, etc. Porém, a dúvida
está exatamente em como educá-los para tanto.
Desde
o nascimento, a criança é inserida em uma família com a
qual aprende as primeiras lições. E muito do que é
aprendido nesta fase, perdura por toda a vida. Em seguida,
acontece o contato com a sociedade de um modo geral: vizinhança,
escolas, parques, igrejas, entre outros que colaboram para as
aprendizagens e experiências, e que também podem influenciar
no comportamento da criança. Entretanto, sua base primária
é a família, e partindo deste princípio, para os pais
obterem a mudança dos filhos, muitas vezes precisam mudar
seus próprios comportamentos, isso porque, as crianças
aprendem e reproduzem os pensamentos e as ações que estão
acostumadas a presenciar.
Segundo
o filósofo Rousseau, “nascemos fracos, precisamos de força;
nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência;
nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não
temos ao nascer e de que precisamos quando grandes, nos é
dado pela educação.” Em outras palavras, podemos dizer que
o homem nasce e passa por um processo de desenvolvimento de
capacidades física, intelectual e moral.
Um
fator de grande valia é que experiências devem preceder
conceitos. Ou seja, os pais que desejam filhos bem educados,
colaboradores, bem humorados, corajosos, etc, precisam ter
esses conteúdos bem claros dentro de si próprios, para que
os filhos possam aprender. E, sendo assim, a primeiro tarefa
dos pais é conhecerem seus sentimentos, suas emoções, seus
comportamentos, o que inclui perceber seu tom de voz e suas
expressões, pois tudo isso pode afetar o comportamento da
criança. Ao fazerem esta auto-observação, os pais poderão
encontrar pensamentos e comportamentos que não gostam,
todavia, tudo o que se aprende em algum momento poderá ser
mudado mediante a novas aprendizagens. É claro que a mudança
pode gerar insegurança, ansiedade, pode até mesmo ser
geradora de dor. Mas quando aparece a oportunidade de fazer
diferente, de tentar algo novo, você só saberá o resultado
se praticar.
Nos
atendimentos realizados na clínica de Psicologia, quase
sempre nos deparamos com pais desesperados, que sentem
dificuldade na relação com os filhos. Analisando, percebemos
falas e comportamentos automatizados, que geram conflitos e
desconforto para toda a família. A comunicação é um meio
importantíssimo para se chegar ao outro. Nos comunicamos de
forma direta e indireta, e muitas vezes nem percebemos que
estamos nos comunicando. Assim, para que o outro entenda
exatamente o que se deseja, fica clara a importância de
aprender sobre comunicação. E esta, sendo utilizada de
maneira construtiva e efetiva, poderá ser um instrumento
facilitador na relação diária entre pais e filhos.
Quando
cito comunicação, não me refiro a horas de conversa, muito
pelo contrário. Ouvir seu filho com toda atenção, por
exemplo, reconhecer seus sentimentos dizendo apenas: Oh! Hum!
Sei! Já é o suficiente na maioria dos casos. Não se deve
subestimar a inteligência das crianças, elas mesmas
conseguem encontrar saídas para seus problemas; se os pais
deixarem.
Vejamos
um exemplo: o filho pode chegar em casa da escola dizendo ter
apanhado de um menino mais velho. Pronto! Já é motivo para o
desespero dos pais que vêem em seu filho, um menino pequeno,
indefeso e que certamente acabará saindo muito machucado se a
situação continuar. É comum os pais protegerem os filhos,
mas o excesso de proteção não é saudável. Em algum
momento de sua vida, a criança sairá para o mundo e precisa
estar preparada para lutar, almejar, sonhar, lidar com frustrações,
assim como com realizações. Desta forma, é importante que
os pais dêem liberdade para que seus filhos possam explorar e
experimentarem o mundo.
Lembre-se,
é importante não subestimar a capacidade de resolução de
seu filho, ouça-o primeiro. Utilize apenas as expressões
citadas acima, hum! Sei! Olhe-o atentamente, mostrando
interesse no que ele está verbalizando. No caso de pais que
fazem perguntas, que culpam o filho, e que apenas dão
conselhos, acabam por criarem dificuldades para a criança,
que não consegue pensar de forma clara ou construtiva.
Se a criança for ouvida com atenção e de forma que fique
tranqüila, poderá verbalizar as soluções que esteve
pensando. Por exemplo: diz que arrumou um amigo maior para
ajuda-lo se for preciso, e que também já pensou na
possibilidade de contar o acontecimento a coordenadora, mas
vai deixar para o último caso.
Se
os pais tivessem verbalizado todas as providências que
tomariam, expressado seu nervosismo, sua angústia, etc, etc,
teria tirado a chance da criança explorar seus próprios
pensamentos e sentimentos, assim como elaborar suas próprias
soluções.
Há
casos em que crianças são superprotegidas e acabam por
tornarem-se adolescentes dependentes dos pais, que nesse
momento, acreditam que seu filho não é um adolescente
“normal”. Isso porque não sai, não viaja, não namora, não
tem amigos, não consegue procurar emprego e conseqüentemente
o encaminham para psicoterapia. Quando adultos, temos que
resolver problemas, dos mais simples aos mais complicados;
seja na escola, no trabalho ou na família, e sendo assim, as
primeiras aprendizagens são extremamente importantes na vida
da criança. O caminho a ser percorrido pode ser diferente,
quando os pais ficam atentos ao que estão provocando em seus
filhos, podendo prevenir situações angustiantes no futuro.
Os
filhos são reflexos dos pais, visto que esses se apresentam
como espelhos. Portanto, os pais devem atentar-se para uma
auto-disciplina e auto-educação, o que por meio do
relacionamento será transmitido aos filhos, gerando
comportamentos mais adequados ao que a família entende como
bom.
Ao
educar, pode-se transmitir conceitos como: coragem, temperança,
amor, tolerância, humildade, humor, simplicidade, pureza, doçura,
felicidade, prazer, dor, justiça, liberdade, paixão, raiva,
inveja, ciúme e outros, que fazem parte dos pensamentos e
sentimentos humanos. Diminuindo ou erradicando a idéia de que
os filhos agem não só da forma que querem, mas
principalmente, da forma que aprenderam. Pensando desta
maneira, encontramos a possibilidade de mudanças, e a partir
daí, novas aprendizagens podem surgir, ressignificando as
antigas, proporcionando mais liberdade e felicidade para a
criança.
Outro
ponto importante é mostrar a essa criança o quanto ela é
capaz. O quanto pode e conseguira resolver tarefas. Crianças
com auto-estima, vistas de forma positiva, sentem-se capazes,
apresentam confiança em si mesmas, e conseguem estabelecer
metas e objetivos elevados, esforçando-se para atingi-los;
assim como, conseguem enfrentar com mais tranqüilidade os
aspectos difíceis da vida.
Referências
Bibliográficas:
FABER,
A. e MAZLISH, E. Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para
seu filho falar. São Paulo, Summus Editorial, 2003.
ROUSSEAU,
J. – J. Emílio ou da Educação. São Paulo, Editora Martins
Fontes, 1999.
SATIR,
V. Contatos com tato. São Paulo, Editora Gente, 2000.
Texto
publicado na Revista Direcional Escolas em janeiro de
2006 - Edição 12.
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