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Matéria com a participação da psicóloga Viviane Scarpelo para o
Diário de São Paulo
Caderno
VIVER do Diário de São Paulo
DE VOLTA AO PASSADO
A regressão pode
resolver crises emocionais. Repórter do Diário fez e diz o que
sentiu
Por Regina Cazzamatta
A
voz e tranqüila da terapeuta Viviane Scarpelo me orientava para
fechar os olhos, soltar o corpo sobre as confortáveis poltronas
amarelas de seu pequeno consultório e senti-lo relaxar
paulatinamente. Enquanto uma música estilo new age soava ao fundo,
ela direcionava meus pensamentos para lugares e situações de
conforto e empolgação. “ Respire profundamente, imagine que esse
ar possa entrar azul e sair amarelo”, dizia. Nesse momento, passei
a me concentrar na minha respiração e percebi melhor os movimentos
de inspiração e expiração.
Em seguida, a
hipnoterapeuta pediu para eu imaginar um local que oferece
conforto e bem estar. Pensei numa praia, às seis da tarde, com um
inesquecível por do sol. Enquanto frisava para que continuasse
respirando profundamente, fazia alusão a uma bolha de sabão. Nessa
hora, me lembrei de um brinquedo que tive na infância que fazia
que fazia bolha de sabão. Na seqüência, ela dava comandos para que
todos os problemas como ansiedade, depressão, nervosismo e
estresse fossem depositados dentro da espuma e empurrados para
longe. A profissional, então, sugeria que eu me recordasse daquele
cenário ao encarar as situações difíceis no dia-a-dia.
Rápido Cochilo
Tranqüilidade foi uma das sensações que mais se destacaram na
sessão. É como tirar um cochilo à tarde, após o almoço, em que a
consciência se perde lentamente e os pensamentos voam em direção
às velhas lembranças. Mas a regressão não se confirmou, pois foi
apenas a primeira sessão.
Essa
experiência representa uma sessão de hipnose empregada durante a
terapia de regressão. Viviane Scarpelo que possui especialização
em hipnose clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP), ressalta que a técnica é usada apenas após
conhecer muito bem o paciente e descobrir seus problemas.
Voltar ao passado, presenciar determinadas situações e
ressignificá-las é um dos princípios básicos desse tipo de
terapia. “ A pessoa sente a descarga emocional de novo, as a
elabora de forma diferente”, diz a psicanalista Fátima Moura de 53
anos. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise
Integrativa. “Anos depois, o paciente esta mais apto para
compreender uma situação que lhe causou um trauma da infância, por
exemplo”.
O
método mais utilizado para fazer uma pessoa regredir é a hipnose
ericksoniana, elaborada pelo americano Milton Erickson. Não tem
nada a ver com aquele pêndulo que vemos nos filmes. “Com o
pensamento focado (transe) é possível trabalhar as questões
diagnosticadas durante a terapia”, diz Viviane. A terapeuta
consegue recuperar as lembranças apenas falando vagarosamente. Com
o uso de imagens, ela chega ao inconsciente. “Há outras formas de
fazer um paciente regredir, como a musicoterapia e a
cromoterapia”, assinala Fátima.
A
regressão é uma técnica para trabalhar conteúdos emocionais. Porém
é extremamente necessário que haja um diagnóstico. “ Não é
recomendável fazer pela simples curiosidade”, observa o terapeuta
Saulo Nagamori, de 30 anos. “Focamos sempre num incomodo presente.
Temos que entender como um fato do passado altera a vida de uma
pessoa hoje”.
Regressão
para emagrecer
A
enfermeira Amanda de Ornelas, de 25 anos, tentou por quase sete
anos perder os trinta quilos que ganhou durante um problema na
medula óssea. Com 1, 50 metro de altura, ela chegou a pesar 80
quilos. “Eu comia compulsivamente e quase tive obesidade mórbida”,
conta. “Procurei ajuda de endocrinologistas, nutricionistas, mas
percebi que só cuidar do físico não estava adiantando. Então
resolvi cuidar da mente.” Foi dessa forma que Amanda procurou uma
psicóloga e hipnoterapeuta. Com análise e sessões de regressão,
ela voltou a pesar 51 quilos em apenas seis meses.
“Com
a regressão é possível ressignificar algum acontecimento que tenha
sido traumático, visando a solução do problema”, diz a
hipnoterapeuta Viviane Scarpelo. Durante as sessões, Amanda
revelou uma de suas histórias mais marcantes, que, possivelmente,
foi a chave para o entrave que vivia. Na infância, ela estava numa
excursão da escola e, na euforia dividiu uma caixa de chocolate
com todos os amigos. Quando chegou em casa, levou uma bronca de
seu pai. Ele disse que tinha comprado as guloseimas somente para o
lanche dela. No dia seguinte, Amanda comeu sozinha uma caixa de
bombons.
A
partir desse flash de memória, foi trabalhada a questão da
compulsão alimentar. “É como se abrisse uma gaveta, um arquivo
morto em sua mente”, conta Amanda. “Em geral, todas as minhas
lembranças eram relacionadas a comida”.
Medo da solidão
A
professora Regina Aparecida Toyama, de 50 anos, também obteve
sucesso com a terapia. “ Nunca gostei de ficar sozinha, sempre
tive medo da solidão”, diz. Numa sessão de regressão ela se viu,
na infância, durante as férias na casa de uma tia em São Jose dos
Campos. “Eu ficava separada das minhas primas, presa em casa,
enquanto elas brincavam”, conta. “Como eu era de São Paulo e não
estava acostumada à neblina, não podia ficar na rua com as outras
crianças.” Depois de trabalhar essa sensação de desamparo ela
passou a lidar melhor com o problema. Hoje, Regina é viúva e sem
filhos e não sofre por causa disso.
Já o
vendedor Nelton Simões, de 30 anos, procurou o método para
controlar o nervosismo. “Voltei a ser criança de verdade. Eu tinha
medo do homem do saco. Cada consulta era uma evolução”, diz. “Eu
era explosivo e hoje aprendi a refletir mais.”
Fonte: Diário de São
Paulo – 24 de junho de 2007 Ano 123 nº 41.027
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