|
Histórias
que Encantam Crianças
Por Viviane Scarpelo
Nesta edição vamos
abordar o tema morte e conseqüentemente o luto. Falar sobre morte
causa desconforto a muitas pessoas, o que provavelmente deve
acontecer pelo fato de não termos controle sobre ela e, também por
não sabermos responder algumas das perguntas formuladas pelas
crianças, como: o que é a morte? Pra onde vamos quando morremos?
Na tentativa de evitar a dor e sofrimento, algumas respostas são
dadas, como: vamos para o céu, viramos estrelas etc. Porém, essas
explicações permeiam um lado mágico e fantasioso, o que pode
colaborar para possíveis pensamentos confusos nas crianças. A
morte é natural à vida, por isso este tema pode ser abordado com
naturalidade, colaborando para a elaboração do luto. Processo
este, onde a criança poderá entender e passar pelo momento de
sofrimento de forma tranqüila, desenvolvendo sua capacidade de
lidar com perdas.
Senhores
professores, bem vindos a história:
João e Soneca
Era uma vez um
menino chamado João, ele tinha um cachorrinho que havia ganhado de
presente do seu tio Godofredo. Por ser um cachorrinho dorminhoco,
recebeu o nome de Soneca. João e Soneca foram crescendo e já
haviam se passado mais de cinco anos de amizade. Todos os dias, os
dois passeavam num bosque perto de casa. Enquanto João tomava um
sorvete, Soneca corria de cá para lá e de lá para cá, sem parar.
Gostavam de brincar com as borboletas e se divertiam muito. Soneca
tinha um osso de borracha que João jogava bem longe para ele ir
buscar.
- Lá vai
Soneca, pega! E lá ia o cachorrinho latindo, pegava o osso e
devolvia ao seu dono.
O tio Godofredo
havia feito uma casinha para Soneca, ele a pintou com diferentes
cores e colocou uma plaquinha na porta com o seu nome. Soneca
dormia ali e parecia adorar sua casa.
Um dia pela
manhã, o menino levantou e foi correndo chamar o Soneca para um
passeio, mas o cachorro não estava lá.
-
Soneca! Soneca!
Ele havia
sumido. João perguntou para sua mãe se ela sabia do Soneca, mas
ela disse que não o havia visto. João resolveu aguardar um pouco.
Chegou a hora do almoço e nada do Soneca aparecer. João começou
ficar preocupado com seu amigo.
- Mãe,
vou até o bosque ver se acho o Soneca.
- Está
bem, mas volte logo.
O menino
caminhou e caminhou, até que viu o cachorrinho no chão próximo a
uma velha carroça onde carregavam palhas de milho.
-
Soneca! João gritou e correu até ele.
O cachorro
estava quase sem conseguir respirar. Não tinha ferimentos, mas
estava mole.
- Não se
preocupe meu amigo, está tudo bem, eu vou te ajudar.
João pegou
Soneca nos braços e andou o mais rápido que pode até sua casa.
Deitou-o no tapete da entrada e foi chamar sua mãe.
- O que aconteceu? Perguntou a mãe do menino.
Ela tentou brincar com Soneca, chamou, assoviou e nada, ele só mexia os
olhinhos.
- Vamos leva-lo ao veterinário. Falou determinada a mãe de
João.
Entraram no carro e foram rapidamente procurar ajuda. O veterinário
examinou, examinou.
- Ele foi picado por uma cobra muito venenosa, precisa ficar
aqui até amanhã para vermos como irá reagir. Disse o veterinário.
João não queria deixa-lo ali, mas era o melhor que
poderia fazer. Deu um forte abraço no amigo e disse:
- A gente se encontra amanhã, amigão.
Em casa, João encontrou o Tio Godofredo, falou sobre o Soneca e os dois
ficaram na sala de estar sentados e conversando.
- Tio, será que o Soneca vai ficar bom?
- Não sabemos, mas espero que sim. O veterinário está fazendo
o que pode para ajuda-lo.
- E se ele morrer?
- João, a morte faz parte da vida. Todas as pessoas, animais
e plantas nascem, crescem e um dia quando estiverem velhinhas,
morrem. O mesmo acontece se nosso organismo parar de funcionar por
algum motivo. No caso do Soneca, pode ser que o veneno da cobra
tenha atingido o seu corpo todo e ele não resista, mas com a ajuda
dos remédios, é possível que ele fique bom e ainda viva por muitos
anos.
João ficou ali sentado na mesma posição, tentando entender o que seu tio
havia falado. Mas surgiu outra dúvida.
- Tio, se ele morrer, para onde ele vai?
- Ninguém sabe realmente para onde vamos após a morte.
Algumas pessoas acreditam que existe uma alma e que ela vai para o
céu, outras dizem que a alma fica vagando como se estivéssemos
vivos, outros pensam que viramos anjos. Como a morte é uma parte
da vida, o mais importante é como vivemos. Se conseguimos realizar
nossos sonhos, se conseguimos ser felizes. O que você lembra de
ter feito com o Soneca?
João se pôs a pensar em todos os momentos bons que teve com seu amigo, e
disse:
- Nós vivemos muitos momentos alegres. Brincamos no bosque e
rolamos na grama. Uma vez corremos atrás de uma galinha e foi
muito engraçado, o Soneca entrou num poço de lama e ficou todo
sujo. Ele é meu melhor amigo.
O tio Godofredo sorriu para João e disse:
- Essas lembranças do passado é que devem permanecer vivas no
seu coração. Que tal você desenhar tudo de bom que viveu até agora
com o Soneca?
- Boa idéia! Disse o menino, e foi pegar papel e lápis de
cor.
Depois dessa conversa com seu tio, João já se sentia mais aliviado.
Desenhou algumas das aventuras que teve com o seu cachorro e
dormiu. No dia seguinte, o veterinário ligou avisando que o Soneca
havia morrido.
João ficou triste e chorou muito, só conseguia pensar no Soneca, estava
difícil para entender que ele nunca mais voltaria. Mas o tempo foi
passando e João aprendendo a lidar com a falta do seu cãozinho.
Continuou desenhando tudo o que lembrava do seu amigo, e um dia,
pediu ao seu tio para leva-lo aonde o Soneca havia sido enterrado.
Lá colocou todos os desenhos, dizendo:
- Soneca, obrigado por ter existido em minha vida!
João agora sentia-se feliz e agradecido por ter tido um cachorro tão
especial, o eterno Soneca.
Fim!
Sugestão de Atividades:
Obs: O intuito deste trabalho não visa finalizar o assunto, até
mesmo porque o tema nos conduz a infinitos pensamentos, mas sim,
iniciar uma discussão e estudo.
O educador
poderá conversar com os alunos sobre morte, luto e os sentimentos
envolvidos no momento da perda. Levantar discussões e ouvir o que
as crianças sabem. Após a leitura da história, perguntar o que
acharam, como se sentiram, se já passaram por uma experiência
parecida, deixando que elas possam falar e trocar idéias e
pensamentos.
O professor
poderá falar sobre a tristeza que sentimos quando alguém de quem
gostamos morre, o que é natural por um tempo. Pode falar sobre a
memória que nos ajuda lembrar de quem amamos. Da saudade que fica,
e solicitar que façam desenhos das lembranças boas e ruins ou que
tragam fotos. Desenhar, pintar ou qualquer forma de expressão de
sentimentos, são caminhos que podem ser utilizados pelos
educadores para atingir o objetivo de falar sobre o tema com
naturalidade.
Abordar o tema morte também nos conduz a falar sobre a vida. O que
pensamos sobre a vida? Como estamos vivendo? O que queremos
realizar? E assim, percorrer o caminho que nos ensina a
importância de desfrutar cada momento que a vida nos proporciona.
Dica: expressar o que pensamos sobre a morte, é uma forma
de estarmos elaborando o luto, processo importante para uma vida
saudável. O educador deve estar atento às colocações dos alunos, e
se acontecer casos de maior dificuldade, que possam ser
encaminhados a um profissional da psicologia. Este poderá ajudar
na compreensão da morte, elaboração do luto e a lidar com perdas.
Colaborando assim, para a saúde psíquica.
Assuntos abordados na coleção:
1. Tina e Tininha - tema principal: medo e coragem.
2. Gustavo – O Grande – tema principal: vergonha.
3.
O Ratinho Cosme – tema principal: prática da felicidade.
4.
Menino Thobias – tema principal: mentira.
5.
A Persistência de José – tema principal: persistência.
6.
A Formiguinha Zóz – tema principal: percepção de mundo e
mudança interior.
7.
Bia – E o Brinde à Saúde – tema principal: cigarro – vícios.
8.
A Casa de Dik Dik – tema principal: diferentes brincadeiras para o desenvolvimento infantil.
9.
A Vaca e a Aranha – tema principal: agrotóxicos e agricultura
natural.
10.
João e Soneca - tema principal: elaboração do luto.
| |
AUTORA:
Viviane Scarpelo Comin.
CRP: 06/75424. Psicóloga
clínica, hipnoterapeuta e orientadora vocacional.
Atendimento à crianças, adolescentes, casais e família. CONTATO:Site:www.delphospsicologia.com.br vivianecomin@portaldelphos.com.br
|
|
Texto
publicado na Revista Direcional Escolas em dezembro de
2006 - Edição 23.
|