Olhe bem
nos meus olhos...
Dos filmes misteriosos para um consultório bem perto de
você, a hipnose cada vez mais se afasta do universo
místico para auxiliar as práticas da medicina moderna.
Relaxe e leia.
Por
Lúcia Seixas
Ainda é difícil
pensar em hipnose sem imaginar uma atmosfera de magia e mistério. Mas essa
idéia está com os dias contados. A hipnose cada vez mais se afasta do universo
místico para atuar lado a lado com as modernas práticas médicas. Quem ganha com
isso é o paciente: a hipnose não tem contra-indicações ou efeitos colaterais e
ainda é capaz de abreviar muitos tratamentos.
Ao contrário do que muitos imaginam, quem está sob hipnose não dorme, não perde
os sentidos e nem fica à mercê da vontade do hipnotizador. Essa mistificação
tem origem ainda nas primeiras civilizações, por volta do ano 3.000 A.C.,
quando já se conhecia técnicas para alterar os estados da consciência. Durante
milênios, os que dominavam a hipnose trabalharam a serviço de práticas obscuras
como exorcismo e bruxaria.
A partir do século 19 a hipnose começou a ser estudada cientificamente e até
mesmo Freud valeu-se dela para construir suas teorias psicanalíticas. Mas só
agora a técnica vem sendo popularizada como prática auxiliar da medicina e
incorporada no dia-a-dia dos consultórios. É esse o movimento que se verifica
nos países de Primeiro Mundo e que vem sendo assimilado também no Brasil. O
Conselho Federal de Medicina já reconheceu a hipnose como ato médico e a
técnica está em vias de regulamentação.
A sensação provocada pelo estado de hipnose é bem primitiva e muito
prazerosa
A hipnose vem sendo aplicada no tratamento de uma enorme gama de distúrbios de
saúde como estresse, insônia, traumas, enxaqueca, vícios, obesidade,
hipertensão, enxaqueca, vitiligo e ainda todo tipo de doenças de fundo
emocional que resultam em problemas respiratórios, digestivos, cardíacos ou
sexuais. Até o hábito de roer unhas, a gagueira ou a incontinência urinária
podem ser tratadas a partir da hipnose.
Quem já experimentou garante que é ótimo. A sensação provocada pelo estado de
hipnose é bem primitiva e muito prazerosa. O corpo relaxa, o coração bate mais
devagar, a respiração se acalma. Uma expressão mais serena e relaxada toma o
rosto do paciente e a cabeça pode tombar para trás, para o lado ou para frente,
suavemente.
Internamente, uma analogia com a visão de uma estrela através de uma luneta
ajuda a entender o que acontece no transe hipnótico. Embora saibamos que existe
todo um universo ao redor da estrela que observamos, ele não importa naquele
momento, não o vemos. Fixamos nossa atenção apenas na estrela que nos
interessa. A estrela, portanto, é a situação a ser tratada na hipnose.
Qualquer pessoa pode aprender em poucas horas a hipnotizar
Durante o transe hipnótico, sob um estado alterado de consciência, o paciente
consegue enfocar um problema físico ou emocional que queira tratar. Quando o
paciente focaliza o seu passado, pode acontecer a regressão. Com a intervenção
de um bom profissional, a hipnose pode ser muito produtiva no sentido de
trabalhar traumas da história do paciente que refletem negativamente em sua
vida.
Há várias técnicas para levar o paciente ao transe hipnótico, todas muito
simples. Qualquer pessoa pode aprender em poucas horas a hipnotizar. O difícil
é processar a terapia nesse estado. Administrar a hipnose exige criatividade e
atenção completa do terapeuta para que o estado de consciência do paciente seja
alterado de modo a acessar seus recursos até então inconscientes. São eles que
vão ser utilizados na cura.
Algumas pessoas parecem ser mais sensíveis à hipnose do que as outras e a
explicação para o fato pode estar na inteligência. Segundo alguns teóricos e a
experiência prática, quanto mais dotado de inteligência o hipnotizado, melhores
os resultados.
A utilização da hipnose como anestésico é muito antiga
Quem tem medo de dentista pode ver a hipnose como uma bênção - inclusive para o
profissional. Além de acalmar o paciente, a técnica permite que o dentista
exerça seu ofício de maneira muito mais tranqüila. Ele pode utilizar a hipnose
para diminuir a salivação ou para conter hemorragias. Pode também agir como um
anestésico, tanto para o tratamento de uma cárie como para a extração de um
dente.
Embora soe como novidade, a utilização da hipnose como anestésico é muito
antiga. Alguns médicos cirurgiões do século 19 modificavam o estado de
consciência de seus pacientes para operar sem dor.
Além dos dentistas, médicos e psicólogos também empregam a hipnose. Para isso,
é preciso conhecer as técnicas de indução hipnótica e os processos
psicodinâmicos, além da neurofisiologia humana.
Em alguns problemas, como dores e certos distúrbios emocionais, a hipnose por
si só pode conseguir os objetivos desejados. Em outros, como nas doenças
psicossomáticas, a técnica tem sido utilizada como prática auxiliar de grande
valia.
A união da hipnose com a psicanálise tem conquistado bons resultados
A psicóloga Sônia Eustáquia Santos, de Belo Horizonte, vem utilizando a hipnose
em vários distúrbios de comportamento através do método ericksoniano de
hipnose, vertente criada a partir dos estudos de Milton Erickson, um importante
teórico do tema. No ano passado, a psicóloga conseguiu, com a ajuda da hipnose,
entre 85 e 93% de sucesso no tratamento de problemas de ordem sexual, como
disfunções ejaculatórias e eréteis e distúrbios do desejo e de orgasmo
feminino.
Embora sejam técnicas bem distintas, a união da hipnose com a psicanálise tem
conquistado bons resultados. Isso acontece porque enquanto a psicanálise
trabalha com a consciência em associações livres, com a transferência e análise
das transferências como elementos básicos, a hipnose afasta a consciência e
atua mais diretamente sobre o inconsciente, fazendo com que este, a seu modo,
processe as mudanças utilizando os potenciais positivos do indivíduo.
"Freud acreditava que somente a palavra poderia livrar as pessoas de seus
males. Erickson, ao contrário, dizia que o inconsciente entende as metáforas e
processa as mudanças, sem necessidade da verbalização. O resultado positivo é o
que vale", afirma Sônia Eustáquia, que é ainda diretora clínica do CEPPA –
Centro de Estudos Pesquisa e Psicologia Aplicada em Belo Horizonte.
Crianças pequenas, pessoas com doenças neurológicas ou debilidade mental não
devem, a princípio, ser hipnotizadas
Para que a hipnose alcance seus objetivos, é preciso que o paciente esteja
implicado no processo, que deseje de fato ser hipnotizado. Assim, crianças
pequenas, portadores de algumas doenças neurológicas ou pessoas com debilidade
mental não devem, a princípio, ser hipnotizadas. A hipnose também não é
indicada em casos graves de depressão, pois os potenciais positivos do
indivíduo estão em baixa em situações assim, o que anula o sentido da técnica.
Fonte:
Salutia.com