As Faces da
Hipnose
Por Odair
José Comin
Através dos
tempos a hipnose tem se apresentado de inúmeras formas. De
tempos em tempos, um novo pensador trás à luz uma nova
face que até então era desconhecida. Muitas das faces da
hipnose, ainda parecem ocultas para a grande parte da
população e mesmo para os estudiosos. Algo tão íntimo e
tão distante da nossa compreensão. Tão íntimo, porque é
inerente à mente humana, podendo acontecer a qualquer
momento em nosso cotidiano, de forma consciente ou
inconsciente. Tão distante, exatamente pelo fato da
incompreensão dos processos hipnóticos, e porque não se
tem um consenso claro do que seja a hipnose.
A hipnose
sendo um fenômeno da mente humana, faz parte do cotidiano
do homem desde os primórdios da civilização, assim como o
transe, e o relaxamento, utilizados largamente nas
civilizações antigas, tanto ocidentais quanto orientais.
Poderíamos dizer que desde que a medicina existe, a
hipnose também existe enquanto prática, principalmente em
anestesias no tratamento da dor. Durante muitos séculos, a
hipnose foi considerada patrimônio das religiões e seitas
antigas, e em torno dela, muitas crenças e mitos foram
surgindo.
A utilização
da hipnose para fins terapêuticos também é muito antiga.
Na Mesopotâmia, à cerca de 4000 mil anos a.C. sacerdotes
utilizavam a hipnose para diagnosticar e curar doentes.
Papiros descobertos por Ebers do Egito antigo, que datam o
ano de 1500 a.C., mostram que os sacerdotes induziam um
certo tipo de estado hipnótico com finalidade de cura. Na
Grécia, em torno do ano 300 a.C., realizavam-se curas nos
templos de Asclépio, o deus da medicina. Induziam-se
estados de transe chamados de sono divino. No início da
era Cristã os irmãos gêmeos Cosme e Damião também
realizavam curas por meio do que chamavam de sono de
incubação.
O início da
hipnose enquanto ciência veio no século XVIII com o médico
Franz Anton Mesmer (1734-1815). Mesmer acreditava num
magnetismo animal que curava, depois descobriu que o
próprio homem possuía esse magnetismo, realizando
diferentes curas sobre o que foi chamado de sono
mesmeriano. Rituais eram realizados normalmente em grupo,
utilizando-se de músicas, danças e palavras. O criador do
termo hipnose em 1843 foi o cirurgião oftalmologista James
Braid (1795-1860), Braid concluiu que as pessoas podiam
cair "num estado particular do sistema nervoso determinado
por manobras artificiais" desde que ocorresse fadiga
cerebral e cansaço visual, o que se conseguia por meio de
repetições de palavras, o que se vê na forma clássica de
trabalhar com a hipnose, ainda vigente nos dias atuais.
De diferentes
formas, a hipnose sempre foi usada para fins terapêuticos,
porém isso ficou mais claro durante o século XX, a partir
das guerras mundiais a hipnose começou a ser utilizadas em
pacientes com dores e traumas da guerra. Nascia então, a
hipnose moderna desenvolvida pelo psiquiatra americano
Milton H. Erickson (1901-1980). Este revolucionou a
prática da hipnose, dando uma nova ênfase, mais rica e com
resultados nunca antes conseguidos. Erickson ficou
bastante conhecido na segunda guerra mundial por seus
trabalhos com a hipnose, e naquela época ainda trabalhava
com a forma clássica da hipnose. Nas décadas de 60 e 70, é
que surgiu a Hipnoterapia Ericksoniana. Através de
metáforas, ele estabelecia um contato direto com o
inconsciente de seus pacientes, causando mudanças muito
rápidas. Dono de uma sensibilidade e criatividade muito
aguçadas ele ganhou campo, e hoje é mundialmente
reconhecido como o pai da hipnose moderna.
O conceito
de hipnose
A hipnose é um
conjunto de fenômenos específicos da mente, que produzem
diferentes impactos, tanto físicos como psíquicos. Esses
fenômenos poderão ser induzidos ou auto-induzidos através
de estímulos provenientes dos cinco sentidos, sejam eles
conscientes ou não. Dentre os fenômenos específicos da
mente produzidos na hipnose, podemos citar a Regressão de
Idade. Esse fenômeno acontece na medida em que o paciente
regride para uma idade do passado tendo essa como
presente, ou seja, se voltar aos seus 5 anos de idade, ele
achará que realmente tem 5 anos. Se nessa época viveu algo
traumatizante, o objetivo do terapeuta é fazer o manejo
desse fato, buscando uma ressignificação, proporcionando
ao paciente novas experiências, ou seja, novas
aprendizagens com objetivos de buscar a solução, buscar a
mudança. Outro fenômeno é a Hipermnésia, neste o paciente
volta para o passado, porém sabe que é apenas uma
lembrança, sabe que o fato aconteceu no passado e tem
consciência. Apenas para citar outros fenômenos, temos a
amnésia estruturada, a catalepsia, a anestesia, a
progressão de idade, a pseudo-orienteção no futuro, as
alucinações positivas e negativas, e o signo-sinal, dentre
outros.
Esses
fenômenos produzem diferentes impactos tanto físicos como
mentais. Físicos como no caso da catalepsia que é um
enrijecimento de um membro do corpo, ou a anestesia de um
local do corpo. Impactos mentais como a amnésia ou
hipermnésia. Esses poderão ser induzidos pelo
hipnoterapeuta ou auto-induzidos, no caso da auto-hipnose
ou mesmo no treinamento autógeno, que é um
auto-relaxamento. A indução ocorrerá através de estímulos
provenientes dos cinco sentidos, pois qualquer estímulo
pode induzir um dos fenômenos hipnóticos e estes podem se
manifestar por qualquer um dos sentidos. Em hipnose, o
terapeuta pode falar sobre o cheiro da pomada anestésica
que esta sendo passada no braço do paciente, e este sentir
o cheiro(alucinação olfativa positiva), a questão é que
não há nenhuma pomada sendo passada, é apenas a mão do
terapeuta deslizando no braço do paciente. Por outro lado,
se no momento em que o paciente estiver em transe, pela
janela da sala entrar o cheiro de um bolo, e este for
percebido pelo paciente, e este fizer parte de sua
história, poderá, por exemplo, leva-lo a uma regressão de
idade ou hipermnésia, de quando tinha 8 anos e sua mãe lhe
fazia um bolo com este mesmo cheiro. Para finalizar a
definição, disse que esses estímulos podem ser conscientes
ou não, isso porque nem sempre o estímulo é percebido,
tanto pelo hipnoterapeuta como pelo paciente. As vezes no
cotidiano temos uma hipermnésia sobre uma viagem que
fizemos há alguns anos atrás, porém não identificamos o
que desencadeou essa lembrança. Muitas vezes o terapeuta
buscará provocar um fenômeno e fará uma comunicação
específica para que este ocorra, porém essa comunicação
poderá estar levando a um outro fenômeno que era
inesperado. Isso porque existem diferentes formas de
comunicação, como a direta, indireta, implícita percebida
e a implícita não percebida.
A
Hipnoterapia Ericksoniana
Milton H.
Erickson conceituou um modelo mais naturalista de
trabalhar com a hipnose. Ou seja, somos indivíduos únicos,
e portanto devemos ser tratados como tal. “A terapia é
única para cada único cliente, construída para as
necessidades e situações daquele sujeito em especial”. (Erickson,
1980 apud Bauer 2000). Erickson era um exímio conhecedor
do comportamento humano e utilizava muito bem esse
conhecimento no processo terapêutico. Utilizava-se de
inúmeros recursos para motivar o paciente a fazer aquilo
que o levaria para a solução de seu problema. Erickson via
suas intervenções como aprendizagens e usava a realidade
individual de cada paciente para provocar as mudanças.
A hipnose vai
acontecer por meio de uma comunicação específica.
Dependendo do que for comunicado é que os fenômenos
hipnóticos estarão acontecendo. Na hipnoterapia
Ericksoniana usa-se a realidade individual do paciente e a
partir desta, cria-se estratégias. Uma das formas de
comunicação largamente utilizadas por Erickson eram as
metáforas ou anedotas. Histórias que servem tanto para
diagnosticar como para intervir. Utiliza-se o que o
paciente tem de melhor em termos de recursos e
aprendizagens durante sua vida, embrulha-se como um
presente e devolve para o paciente, mostrando-lhe o quanto
é capaz de resolver seus problemas. “Pode-se utilizar
anedotas em qualquer tipo de psicoterapia e em qualquer
fase do processo de tratamento” (Erickson e Zeig, 1995).
A hipnoterapia
Ericksoniana é chamada de terapia estratégica, e “esta
pode ser chamada de estratégica quando o clínico inicia o
que desenrola durante a terapia e designa uma abordagem
particular para cada problema... O terapeuta deve
identificar problemas solucionáveis, estabelecer
objetivos, planejar intervenções para atingir esses
objetivos, investigar as respostas que recebe para
corrigir sua abordagem, e por último, examinar o resultado
de sua terapia para verificar se foi efetiva” (Haley,
1991). O hipnoterapeuta deve motivar seu paciente,
utilizar metáforas e movê-lo em direção à cura, deve
caminhar junto com o paciente, ou seja, dar o que ele pode
receber naquele momento. Deve utilizar os recursos que o
paciente já tem, além de possibilitar novas aprendizagens
e adquirir novos recursos.
Aprendizagens dependentes de estado
Na
hipnoterapia ericksoniana, o processo de terapia é visto
como aprendizagens, o paciente deve ser fruto e agente de
suas mudanças. Se algo aprendido no passado do paciente
lhe causou um trauma, no presente isso é visto como uma
impossibilidade, como no caso de uma fobia ou medo
paralizante. O objetivo do terapeuta é provocar novas
aprendizagens, para que as antigas sejam suplantadas. Se
algo no passado é aprendido de determinada forma, é
possível aprender de uma outra forma no presente e
espera-se que este processo leve o paciente à mudança e a
solução de seu problema.
Temos
diferentes formas de acessar o passado, e normalmente as
memórias do passado tem relação com a forma como nos
sentimos e pensamos no presente. Por exemplo, numa
hipermnésia. O paciente/indivíduo pode ouvir uma música de
que gosta muito, a música o levará para uma época do
passado em que a ouvia esta e se sentia muito bem,
levando-o a sentir-se bem no presente como sentiu-se no
passado. O contrario também é verdadeiro, talvez quando
ouvia essa música sentia-se mal, desta forma novamente
eliciará pensamentos e/ou sentimentos que lhe deixarão
mal. No processo terapêutico isso é bastante importante,
principalmente enquanto intervenção, pois pode-se eliciar
uma lembrança de sucesso do passado e com essa lembrança
na consciência provocar novas aprendizagens no presente, o
que estará colaborando para o processo de mudança.
Pesquisas
foram realizadas que comprovam esse processo chamado de
memória, comportamento e aprendizado dependentes-de-estado.
“Alguns pesquisadores fizeram com que 48 sujeitos
memorizassem silabas sem sentido, enquanto estavam
bêbados. Quando sóbrios, esses voluntários tiveram
dificuldade em recordar o que haviam aprendido, mas eles
puderam recordar significativamente melhor quando eles se
encontravam bêbados outra vez.” (Rossi, 1997). Isso mostra
que quando os indivíduos voltaram ao mesmo estado de
embriagues, também voltam ao mesmo comportamento e acessam
com maior facilidade a memória e o aprendizado adquirido.
Quanto maior
for a vivência por parte do paciente em determinado
estado, mais fortes tornam-se as aprendizagens dependentes
deste estado. Esta intensificação pode ser conseguida
através da regressão de idade ou mesmo na hipermnésia num
grau qualitativo diferente. Por exemplo: se uma pessoa vai
prestar vestibular (estímulo), um pensamento é
desencadeado, com isso pode ficar muito ansiosa (estado).
Na medida em que o momento se aproxima, sua ansiedade
aumenta ainda mais (intensificação do estado). Com isso
ela poderá estar lembrando-se de outros momentos em que
teve que fazer provas (memória) e que também ficou muito
ansiosa. Talvez ela pense em alguns resultados que não lhe
foram satisfatórios (aprendizagens). Sua ansiedade
aumenta, e junta-se à insegurança, ao medo, etc. Ela
poderá desistir de fazer a prova, ou fazer e “travar”, não
conseguindo responder às questões(comportamento).
Num outro
caso, se tivermos uma pessoa que está passando pela mesma
situação, e por si só, ou por meio de uma intervenção
terapêutica, o processo se desencadearia de uma outra
forma: mediante à prova (estímulo), teria pensamentos que
lhe trazem tranqüilidade e segurança (estado). Este estado
é criado e eliciará novos pensamentos e memórias de
momentos na vida em que teve sucesso, tranqüilidade,
confiança e segurança, todos estes sentimentos começam a
ser trazidos à tona(memórias). O estado agradável se
intensificará, quão mais intenso forem as memórias em que
este mesmo estado fez-se presente em momentos anteriores.
Terá então, novas aprendizagens dependentes deste estado
(aprendizagem), que lhe propiciarão segurança e confiança
para realizar a prova (comportamento), extraindo o máximo
possível de seus conhecimentos para responder as questões
previstas.
Hipnose e
Dor
Nossos
pensamentos ou nossa energia psíquica causam diferentes
efeitos em nosso corpo. A energia psíquica estará onde
nossa atenção estiver focada. Podemos estar numa mesa de
cirurgia, mas se nossa atenção estiver num lindo dia de
sol na praia, é lá que estará nossa energia psíquica.
Ocorre aí o fenômeno hipnótico chamado dissociação, e a
realidade passa a ser a da praia e não mais a da cirurgia.
É como se esta não mais existisse, portanto o médico
poderá fazer a incisão e o paciente nada sentirá, porque
“ele não está mais lá”, enquanto pensamento ou estimulação
psíquica. Isso nos leva a pensar na eliminação da dor,
pois conseguimos desviar nossa atenção para diferentes
lugares, fazendo com que a dor saia do foco, impedindo que
impulsos nervosos de dor sejam “lidos” por nosso sistema
nervoso.
O ser humano é
capar de sentir dor e prazer, porém eles não acontecem ao
mesmo tempo, não podemos senti-los juntos. É como se
tivéssemos uma única via que levasse as informações para o
sistema nervoso, mas nessa via só pode passar um
sentimento, dor ou prazer. Se um paciente chega no
consultório sentindo dor de cabeça, por exemplo, o
paciente sente e descreve a dor, sua atenção está focada
nela, portando uma via recebendo estímulos dolorosos o
tempo todo. Ao colocar esse paciente em transe, pode-se
fazer com que este como no exemplo acima, comece a ter
pensamentos que o levem para um lugar agradável, como no
caso da praia, se esta fizer parte da realidade individual
do paciente. Na medida em que sua energia psíquica se
dirige com mais intensidade para aquele ambiente, a via
começa a ser preenchida por sentimentos de prazer e pode
se intensificar aos poucos. Desta forma a dor
desaparecerá. É importante salientar que esta é uma das
formas utilizadas dentre outras que a hipnose pode
oferecer. Além disso, é importante se ter um diagnóstico
preciso do porque da dor, para só depois elimina-na, pois
a dor pode estar delatando que o corpo não está bem como
no caso de um tumor.
Erickson
descreve a dor como um complexo, um construto, composto de
dores lembradas, a experiência da dor presente e passada e
pelas possibilidades futuras da dor. “Mas, por ser um
construto, a dor é vulnerável a hipnoterapia, pela
abrangência desta e por suas possibilidades de utilização
de recursos internos do paciente” (Carvalho, 1999). A dor
tem a variável da expectativa versus a realidade, ou seja,
a memória da dor poderá fazer com que a dor no presente se
intensifique. Uma cirurgia no futuro trará sentimentos no
presente, e dependendo de como o paciente percebe ou
imagina a dor da cirurgia que está por vir, poderá fazer
com que sinta uma dor muito maior do que a situação em si
poderia oferecer. O contrário também é verdadeiro, e o
paciente poderá sentir menos dor do que a situação
ofereceria.
Na hipnose, a
dor ou a cura desta, é muito trabalhada por meio de
imagens, de visualizações. Esse processo foi utilizado
pela maioria das civilizações antigas, e vem se
modernizando através dos tempos e se mostrando bastante
eficaz. “A imagem é uma variável sempre presente em todas
as questões relacionadas à saúde... A imaginação não é
apenas naturalmente concomitante a toda cura, mas está
envolvida em todas as interações dos profissionais de
saúde com seus pacientes... Quando as sensações corporais
chegam à nossa consciência, sobretudo quando são
alarmantes, é criada a imagem de uma paisagem interior” (Achterberg,
1985). O objetivo na hipnose é que essa paisagem interior
possa ser mudada por meio do redirecionamento da nossa
energia psíquica, de pensamentos ou sensações dolorosas
para uma paisagem interior prazerosa.
Aplicações
da Hipnose
A hipnose
oferece inúmeras aplicações e ganha a cada dia mais espaço
e mais credibilidade. A hipnose abarca desde as doenças de
uma forma geral, domo: depressão, síndrome do pânico,
stress e ansiedade, como os problemas de auto-estima,
insegurança, perfecçionismo, medo de errar, medo de falar
em público, dificuldades relacionadas à aprendizagem e
memória, além do controle, eliminação ou diminuição das
diferentes dores.
Alguns
conceitos e aplicações sobre a hipnose, foram falados
aqui, todavia muito há por falar, e muito mais ainda há
por descobrir, muitas faces ainda estão por ser trazidas à
luz. A hipnose é uma ciência e ao mesmo tempo uma arte, a
arte de possibilitar a descoberta do ser humano por ele
mesmo, a arte de curar, a arte de proporcionar uma melhor
qualidade de vida, a arte de proporcionar prazer e
felicidade ao paciente. A hipnose é uma arte para viver
melhor e com mais intensidade.
Referências
Bibliográficas
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ZEIG, J. K. Vivenciando Erickson. Campinas. Livro Pleno,
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Artigo
extraído da Revista Psicologia Brasil
Nº 04 - Dezembro de 2003.